Pensamentos sobre Cultura do Cancelamento: um estudo sobre dois escritores

A “cultura” do cancelamento é o mal do século. Ponho entre aspas pelo seguinte motivo: é tão ridícula que o termo cultura não lhe é adequado! Uma quimera, monstro mitológico símbolo do absurdo, com corpo de leão, cobra e serpente, que há muito tempo carece de um herói como Beleforonte que lhê dê cabo de uma vez. Como provar tal afirmação? Caro leitor, não é uma façanha árdua, basta ver que a quantidade de autores que já não encontramos mais em bibliotecas e livrarias. Ah, livrarias e bibliotecas, locais tão pouco visitados pelo homem do século XXI, tão apressado que vive com seus iphones, ipods e redes sociais bombardeando dopamina barata em um cérebro já fatigado.

O primeiro escritor a que me refiro é um homicida, estuprador e torturador. Foi um dos iniciadores do pseudoargumento do “meu corpo, minhas regras” para defender o aborto e passou boa parte de sua vida preso em masmorras e hospícios. Todavia, em seus escritos, defende um ponto de vista hedonista, em que não há limites para a satisfação das vontades mais perniciosas de um psicopata. Uma de suas obras, um romance que narra como crianças foram raptadas para satisfazer os desejos mais bárbaros de libertinos, é amplamente lido e se encontram exemplares em qualquer livraria de esquina.

O segundo escritor não fala de hedonismo. Na verdade trata-se do criador de um belo imaginário, com bonecas  burros falantes e “sabuguinhos científicos”, em que crianças viajam para terras mágicas e longinquas acompanhados de sua avó, chegando a viajar até a Grécia Antiga  e ter diálogos acalorados com Péricles, Fídias e Sócrates. No entanto, o uso de um termo mal interpretado por militantes sinalizadores de virtudes, que precisam com urgência de um antirrábico, e pseudoprofessores, que mais parecem burocratas comunistas do que educadores, e que nunca devem ter lido um livro do autor em questão, começaram a pedir-lhe a cabeça em uma bandeja e que seus livros não sejam mais lidos.

Agora passemos a dar nome aos bois. O primeiro autor é o tristemente célebre escritor francês  Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido apenas como o Marquês de Sade, daí a origem do termo sadismo. O livro de sua autoria, mencionado anteriormente a título de exemplo, se chama Os Cento e Vinte Dia de Sodoma, obra cuja leitura não recomendo para quem seja pai ou que tenha problemas hepáticos e/ou cardiopatias graves. Já o segundo, trata-se do senhor Monteiro Lobato, pai da literatura infantil brasileira e um dos maiores divulgadores do nosso folclore no universo infantil do Sítio do Pica-Pau Amarelo, mas tão perseguido por seu próprio povo, cujos burocratas e censores que cospem no prato que comeram pedem seu cancelamento.

Convém ressaltar que Monteiro Lobato é um exemplo tupiniquim, mas o cancelamento de um escritor célebre, sob falsas acusações de racismo, não acontece apenas no Brasil. Poderia estar falando de esritores conservadores como Chesterton, Tolkien, Mark Twain (esse aqui não tão conservador assim) e tantos outros que não escapam do escrutínio implacável dessa miitância.

Fica então o questionamento: por quê se louva o primeiro escritor e se denigre o segundo? É algo a se cogitar sobre que tipo de futuro vamos legar às gerações futuras quando essa suposta lógica de cancelamento ainda estiver em vigor.

Acho que o Marques de Sade deve ser banido, cancelado, apagado da história? Não! Não se deve pagar com a mesma moeda e, se algo se aprende com a história, é que a censura só faz aumentar a vontade do público de ter acesso à obra do escitor cancelado (vide Efeito Streisand). O melhor é se criar uma consciênia sobre o certo e o errado, o justo e o injusto, e um apelo aos pais: mantenham seus filhos longe do Marquês de Sade e bem perto de Monteiro Lobato!

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