Análise de Obra de arte: Ordem de Soltura

A Ordem de Soltura é uma das obras mais marcantes de John Everett Millais, um dos expoentes do movimento dos pré-rafaelitas no século XIX. O movimento foi uma reação aos padrões artísticos em vigor na época, e seus membros almejavam um retorno ao passado nas artes, mais precisamente à epoca anterior à do artista da Renascença Rafael Sanzio, embora nessa pintura em específico Millais já mostre estar desenvolvendo um estilo próprio, distante de seus pares no movimento.

Observemos o contexto histórico. No século XVIII, houve duas revoltas relevantes contra os governantes britânicos, guerras civis que buscavam depor os reis ingleses e a volta ao trono do Rei James da Escócia. Tais revoltas ficaram conhecidas como Levantes Jacobitas e findaram com a derrota definitiva do exército jacobita na Batalha de Culloden em 1746. Millais buscou inspiração nesse movimento, mas a análise da obra deve ir muito além da mera análise visual, especialmente se conhecermos a história do autor.

À primeira vista a obra parece apenas retratar uma cena que poderia ter ocorrido após a derrota jacobita. Um highlander, encarcerado após a batalha, chora diante de sua esposa e filho de tenra idade, e é recebido calorosamente por seu fiel cão, que não esconde a felicidade de reencontrar seu dono. Pode-se dizer que  a protagonista da cena é a esposa, sendo a única figura cujo rosto aparece em destaque, enquanto o highlander cobre o rosto, numa possível mistura de sentimentos, talvez alegria por estar vivo e poder encontrar a esposa e o filho ou vergonha pela derrota e por ter sido capturado? A mulher entrega ao guarda uma ordem de soltura, a qual é lida com o que classifico de “olhar burocrático”, quase um “olhar de peixe morto”, para que o marido seja libertado. O detalhe no chão que escapa são as rosas brancas caídas. As rosas eram um dos símbolos dos jacobitas e, ao representá-las assim, Millais mostra que a causa se perdeu definitivamente.

Agora uma análise mais meticulosa. A modelo para este e muitos dos seus quadros foi Effie Gray, que era casada com o amigo de Millais, o crítico de arte John Ruskin. Effie teve uma vida muito infeliz nos anos em que viveu com o marido e era secretamente amada por Millais. Talvez o highlander que oculta o rosto seja o próprio Millais que chora com vergonha por estar apaixonado pela  mulher do amigo? Por outro lado, pode-se interpretar como um choro de redenção, já que Effie conseguiu obter um divórcio de Ruskin, representado pela ordem de soltura,  e casar-se com Millais.

Qual a verdadeira interpretação? Tavez nunca saibamos! Uma característica do bom artista, que o diferencia do medíocre, é que não nos deixa nítido o que sua obra representa. Lendo sua biografia, e estudando a história da arte, podemos ter pistas, o que faz o trabalho do critico se assemelhar de certa forma a de um detetive. Por outro lado, certeza sobre a real mensagem do autor, nunca teremos. Só Millais poderia nos esclarecer os mistérios dessa obra. Cabe ter humildade e citar Sócrates: só sei que nada sei!

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