Pular para o conteúdo
Arte

Análise de Obra de arte: Ordem de Soltura

André Gurgel · 19 de julho de 2026 · 3 min de leitura
Análise de Obra de arte: Ordem de Soltura

A Ordem de Soltura é uma das obras mais marcantes de John Everett Millais, um dos expoentes do movimento dos pré-rafaelitas no século XIX. O movimento foi uma reação aos padrões artísticos em vigor na época, e seus membros almejavam um retorno ao passado nas artes, mais precisamente à epoca anterior à do artista da Renascença Rafael Sanzio, embora nessa pintura em específico Millais já mostre estar desenvolvendo um estilo próprio, distante de seus pares no movimento.

Observemos o contexto histórico. No século XVIII, houve duas revoltas relevantes contra os governantes britânicos, guerras civis que buscavam depor os reis ingleses e a volta ao trono do Rei James da Escócia. Tais revoltas ficaram conhecidas como Levantes Jacobitas e findaram com a derrota definitiva do exército jacobita na Batalha de Culloden em 1746. Millais buscou inspiração nesse movimento, mas a análise da obra deve ir muito além da mera análise visual, especialmente se conhecermos a história do autor.

À primeira vista a obra parece apenas retratar uma cena que poderia ter ocorrido após a derrota jacobita. Um highlander, encarcerado após a batalha, chora diante de sua esposa e filho de tenra idade, e é recebido calorosamente por seu fiel cão, que não esconde a felicidade de reencontrar seu dono. Pode-se dizer que  a protagonista da cena é a esposa, sendo a única figura cujo rosto aparece em destaque, enquanto o highlander cobre o rosto, numa possível mistura de sentimentos, talvez alegria por estar vivo e poder encontrar a esposa e o filho ou vergonha pela derrota e por ter sido capturado? A mulher entrega ao guarda uma ordem de soltura, a qual é lida com o que classifico de “olhar burocrático”, quase um “olhar de peixe morto”, para que o marido seja libertado. O detalhe no chão que escapa são as rosas brancas caídas. As rosas eram um dos símbolos dos jacobitas e, ao representá-las assim, Millais mostra que a causa se perdeu definitivamente.

Agora uma análise mais meticulosa. A modelo para este e muitos dos seus quadros foi Effie Gray, que era casada com o amigo de Millais, o crítico de arte John Ruskin. Effie teve uma vida muito infeliz nos anos em que viveu com o marido e era secretamente amada por Millais. Talvez o highlander que oculta o rosto seja o próprio Millais que chora com vergonha por estar apaixonado pela  mulher do amigo? Por outro lado, pode-se interpretar como um choro de redenção, já que Effie conseguiu obter um divórcio de Ruskin, representado pela ordem de soltura,  e casar-se com Millais.

Qual a verdadeira interpretação? Tavez nunca saibamos! Uma característica do bom artista, que o diferencia do medíocre, é que não nos deixa nítido o que sua obra representa. Lendo sua biografia, e estudando a história da arte, podemos ter pistas, o que faz o trabalho do critico se assemelhar de certa forma a de um detetive. Por outro lado, certeza sobre a real mensagem do autor, nunca teremos. Só Millais poderia nos esclarecer os mistérios dessa obra. Cabe ter humildade e citar Sócrates: só sei que nada sei!

André Gurgel
André GurgelAdvogado, professor e latinista. Escreve sobre arte, educação, línguas clássicas e finanças.
Compartilhar: WhatsApp LinkedIn Facebook

Leia também

Arte

Analise da Obra Cristo na Casa dos seus Pais

Os Pré-Rafaelitas foram um grupo de artistas do século XIX que se rebelaram contra as tendências artísticas dominantes da época.  Suas principais crít…

1º de setembro de 2025
Cultura

Pensamentos sobre Cultura do Cancelamento: um estudo sobre dois escritores A “cultura” do cancelamento é o mal do século. Ponho entre aspas pelo segui…

14 de julho de 2026